Rios, lagoas, mar: saberes e identidades culturais

Pesca

Foto: Francisco Flor

Os rios, lagoas e açudes são importantes fontes de água para qualquer território. Nas condições de semiaridez do Ceará, essa importância se faz sentir de maneira mais marcante.

Os maiores rios cortam o interior do estado e desaguam no mar, vencendo a sequidão da região e cumprindo sua função no ciclo hidrológico de reabastecer o oceano, levando água, sedimentos e nutrientes que possibilitam a manutenção do equilíbrio dinâmico de diversos ecossistemas fluviais e marinhos. Mas, o
clima e a água dos rios, lagoas, açudes e mares também contribuem para a formação de um conjunto de saberes populares transmitidos através das gerações.

Ao longo da história de ocupação do Ceará, estes elementos influenciaram no desenvolvimento de técnicas agrícolas e na escolha dos produtos que seriam cultivados, de forma a potencializar aqueles que mais se adequassem à realidade climática e às condições de solo encontradas no Ceará.

É por isso, por exemplo, que temos a predominância de feijão, milho e macaxeira, pois são culturas agrícolas que se adaptam bem às técnicas de sequeiro. A partir desses produtos, foram surgindo diferentes pratos da culinária sertaneja, como a farinha, o mugunzá, o bolo de milho, a tapioca, etc.

O ofício das lavadeiras de roupa é outra referência cultural que nos remete aos rios e lagoas. O que dizer das mulheres que, sem água encanada em casa, carregam suas trouxas de roupa na cabeça até o rio, aproveitando das suas águas correntes para lavá-las? Após ensaboar, bater e esfregar, as roupas são estendidas na areia das margens ou sobre o mato rasteiro para quarar, ou seja, para o sol facilitar a saída da sujeira. Depois disso, é só enxaguar e tudo fica limpo!

A sociabilidade nesses momentos tem características peculiares. Na labuta, pode-se cantar, compartilhar histórias, atualizar-se sobre os acontecimentos recentes que alteram o cotidiano da vizinhança e repassar o ofício, responsabilidade das mulheres, para as mais jovens. Crianças quase sempre fazem parte desse grupo, mas encarregam-se de nadar e brincar enquanto esperam o retorno a casa.

Nos encontros dos rios com o mar, ampliam-se as possibilidades de sobrevivência com maior abundância de espécies para a pesca e a catação de crustáceos e moluscos nas áreas de mangue. Esse ecossistema é, via de regra, repleto de seres sobrenaturais que guardam os recursos naturais existentes e disciplinam o seu uso. As marisqueiras, catadoras de mariscos nas terras umedecidas pelo vai e vem das marés, são personificações de mulheres guerreiras que contribuem para o sustento da família, que buscam

a auto-organização em defesa dos seus direitos e que inexistem dissociadas do rio e do mar – e do livre acesso a esse bem coletivo.

Os pescadores, do mar e dos rios, não é preciso lembrar, são conhecidos por suas histórias superlativas relacionadas à oferta de peixes, aos acidentes evitados por intervenção divina e outras categorias de narração surpreendentes.

Em sua relação com o ambiente, os pescadores desenvolveram técnicas de ofício que são transmitidas e aperfeiçoadas pelas gerações seguintes. A construção das canoas, paquetes e jangadas, as tarrafas, os anzóis, a escolha dos lugares de pesca, a orientação precisa para os melhores bancos de peixes e os currais de peixe no mar são alguns exemplos de como os saberes populares e os ofícios tradicionais estão intimamente relacionados à água, sendo transmitidos dos mais velhos para os mais jovens.

O ofício também tem reflexos na religiosidade. A festa dos pescadores costuma estar associada às comemorações de São Pedro, santo católico conhecido por proteger aqueles que vivem da pesca. Normalmente, estas comemorações ocorrem nas comunidades praianas e, na enseada do Mucuripe, em Fortaleza, a procissão marítima acontece desde 1930.

Outra manifestação religiosa relacionada ao mar e aos pescadores em algumas comunidades são as oferendas à Iemanjá. As comemorações ocorrem no dia 2 de fevereiro com envios de pequenos barcos com flores, bilhetes e oferendas à Senhora das Águas com agradecimentos, pedidos de proteção e fartura para os pescadores.

A culinária também é influenciada pela pesca marítima ou fluvial, resultado da oferta de certos tipos de peixes e da alimentação dos pescadores em sua lida. Em algumas comunidades praianas, os famosos grolados de tapioca com peixe são marca registrada. Nas águas do sertão, a ova de curimatã cozida produz uma iguaria espetacular.

Rios, lagos e mares são, também, locais de memória relacionadas ao lazer e a fruição. Banhos, encontros, brincadeiras, desafios, namoros, fugas e música fazem parte da vida cotidiana e, muitas vezes, têm lugar cativo nas fontes de águas.

Foto: Francisco Flor

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