A água e os múltiplos significados

Foto: Francisco Flor

Foto: Francisco Flor

Ao longo dos maiores rios do Ceará, e também nas margens de grandes açudes e lagoas, as formas de vida e de organização social, as expressões linguísticas e os rituais simbólicos de muitas populações tradicionais possuem profundas marcas associadas aos rios e às águas.

A lagoa, o rio e o mar não são apenas lugares onde se buscam água para garantir a vida em seu sentido biológico. Esses espaços passam a ter um significado diferente e particular para cada comunidade que está em contato permanente com eles. Aos poucos, essas referências vão se incorporando ao imaginário comum e esses ambientes aquáticos vão ganhando importância para além de fonte
de água para matar a sede ou para fornecer peixes.

Para os índios Tapeba, que moram em Caucaia, a lagoa abriga seres sobrenaturais chamados de Encantados que possuem poderes sobre a natureza e que podem trazer fartura ou malfazejos, dependendo da relação de respeito que você estabelece com eles e com o ambiente onde vivem. Cobras podem aparecer como belas moças e galos viram príncipes. O Cacique Alberto contou como aconteceu seu primeiro contato com um desses Encantados:

Depoimento de Cacique Alberto, etnia Tapeba, feito em 2006 para os estudos de doutoramento
de Gustava Bezerril Cavalcante, chamado de “A Natureza Encantada que Encanta: histórias de seres dos mangues, rios e lagoas narradas por índios Tapeba”, publicado em 2010.

Eu cheguei a ver e eu vou lhe contar já uma. Eu pescando, eu vi o encanto encostado em mim. E eu nesse dia não peguei nada, nada! Era a Mãe D’água, ‘rainha das águas’ e eu não peguei nada, porque eu não sabia o que era aquela coisa que tava, aquela moça tão bonita, certo! Cabelo liso, um pouco clara, não muito branca, meia clara, uma morena assim cor de canela e bem feita, com um corpo que nem uma moça da terra. É porque ela é a rainha do peixe, ela é quem manda no trato do peixe. Ela é quem manda na água.

Esses seres encantados estão presentes em diferentes culturas tradicionais. Eles assumem o papel de guardiões da natureza exigindo respeito para com o ambiente e controlando o acesso aos recursos naturais (plantas, peixes, água). Também podem salva- guardar vidas em casos de perigo. Os ciclos naturais de cheia e seca, de fartura ou escassez, de perigo ou calmaria podem, portanto, possuir explicações simbólicas e não se encontram submetidos aos desejos humanos.

O marido da minha neta foi pescar com os outros homens. E aí eles foram perseguido pelo Guajara. Eles estava transformado num lobo. Ele é assim, se transforma no que quiser. Aí a pesca não foi boa porque ele não deixou (…) Tem um homem que mora aqui perto e foi pescar e quando foi atravessar o rio viu um menino sentado. Aí ele perguntou por onde o menino tinha atravessado. O menino respondeu e disse que ele podia passar porque era raso. Ele ficou desconfiado de que aquele menino era o Guajara e não aceitou o conselho. Aí ele foi atravessar mais na frente. Quando ele entrou no rio, quase morreu afogado e voltou. O menino tava esperando e deu uma surra nele. E disse que era pra ele não duvidar da palavra dele, pois tinha ensinado o caminho certo. O Guajara quando se engraça com uma pessoa ele ajuda, mas a pessoa não pode desobedecer porque ele castiga.

Foto: Francisco Flor

Foto: Francisco Flor

O Guajara é o pai do mangue. Ele é o pai do mangue. No dia que a gente vem pescar, que ele não quer que a gente pegue peixe, não pega. No dia que ele não quer que a gente não pegue peixe, a gente não pega nenhum.

Depoimento de Maria Pedro, da etnia Tremembé de Almofala, feito em março de
1992 e disponível em OLIVEIRA JÚNIOR, Gerson Augusto de. O encanto das águas: a relação dos Tremembé com a natureza. Fortaleza: Museu do Ceará, 2006.

Depoimento
de Chico, da etnia Tremembé de Almofala, feito em janeiro de 2003 e disponível em OLIVEIRA JÚNIOR, Gerson Augusto de. O encanto das águas: a relação dos Tremembé com a natureza. Fortaleza: Museu do Ceará, 2006.

Com os exemplos acima, percebemos que as fontes de água podem desempenhar um papel sobrenatural e, portanto, as pessoas podem associar a elas significados não palpáveis, forma- dos por um conjunto de sentidos imaginários e transcendentais.

Mas são muitas as dimensões que a água assume na nossa vida. Uma das mais importantes para os grupos tradicionais e moradores de comunidades próximas a fontes de água é o papel que estes desempenham na consolidação e apropriação do território que ocupam. Essas fontes possuem papel funda- mental na organização social e criam condições para a produção e reprodução da vida e da sociabilidade. Esses elementos ajudam na delimitação dos territórios a partir das funções sociais que lhe são inerentes: suprir as necessidades domésticas; irrigar hortas, pomares e cultivos; servir como caminhos para transporte e navegação e locais de lazer; ser fontes de energia; abrigar seres naturais e sobrenaturais.

Para as populações que possuem uma forte base econômica e social ligada aos elementos naturais, a dimensão socioeconômica da água também merece destaque. É possível elencar uma série de atividades relacionadas à água e que representam fontes de renda e sustentam a economia local. A agricultura de subsistência ou em pequena escala é uma das principais e mais marcantes atividades desenvolvidas ao longo de rios, nas margens de lagos e próximo a fontes de água subterrânea, cumprindo tanto a função de abastecer internamente a comunidade quanto ser vendido para aquisição de outros produtos. A pesca e a coleta de crustáceos possuem papel semelhante. O artesanato, em grande medi- da, relaciona-se com a água, mesmo que indiretamente: a carnaúba, por exemplo, que fornece a palha para cestas e chapéus, nasce próximo a locais que ficam periodicamente alagados; o barro para esculturas ou utensílios domésticos encontra-se, também, em locais próximos a fontes de água.

Isso significa que, sem acesso aos recursos hídricos, a possibilidade de manutenção da economia tradicional e de reprodução dos saberes dessas comunidades é anulada, provocando uma cor- rida das pessoas para os centros urbanos em busca de emprego e sujeitando-se a uma forma de vida bastante distinta.

De maneira geral, em comunidades tradicionais a água é compreendida como um bem coletivo e o uso é mediado por uma re- lação de respeito e reverência, dada a importância e centralidade que esta assume na cultura local. Esta é a base para compreender a dimensão política da água considerando a forma de apropriação desse elemento. Para entender melhor, basta pensarmos em como as sociedades urbanas lidam com a água: quem tem recursos financeiros pode pagar pela água encanada ou engarrafada. Nas cidades, a água desempenha uma função utilitarista e as relações com as fontes foram mercantilizadas.

Quando certa comunidade se organiza para defender a sua for- ma de se relacionar com a água contra, por exemplo, uma indústria que joga resíduos poluentes nela ou outra que cerca a fonte para engarrafar a água ou vendê-la, essa é uma escolha política, pois política é, também, aquilo que fazemos para defender nossos direitos e ideais, é a forma como organizamos a nossa coletividade e como nos relacionamos com outras coletividades.

 

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