Semiaridez e cultura no Ceará

O Ceará é um estado localizado no Nordeste brasileiro, um território marcado pelo clima semiárido cuja principal característica é a ocorrência concentrada de pouca chuva, ou seja, toda a chuva de um ano, que não é muita, cai apenas durante alguns meses. Os longos períodos de estiagem têm caracterizado esta região como lugar de flagelos. A época de chuvas, ao contrário, caracteriza a bonança, apesar de trazer consigo as enchentes e outros sofrimentos.

Entretanto, esta é apenas uma forma superficial de enxergar a alternância contínua entre excesso e escassez de água nos rios do semiárido. A seca e a chuva fazem parte de um ciclo natural a partir do qual o cotidiano das pessoas vai sendo emoldurado, num aprendizado constante que se enraíza nas formas de ser, de estar e de agir no mundo e que cria condições para o desenvolvimento de referências culturais que dialogam e se resignificam na indissociável relação que estabelecem com rios, lagoas e mares.

Foto: Francisco Flor

Foto: Francisco Flor

A agricultura nas margens dos rios e lagoas fertilizadas pelas suas enchentes periódicas, além de outras fontes de água como as cacimbas e os açudes, possibilitou o surgimento de pequenas comunidades que vivem em comunhão com os ciclos de chuva e escassez típicas do semiárido.

A convivência com a seca e a importância da chuva para abrandar as limitações da falta de água fizeram com que muitas pessoas começassem a prever a chegada do período chuvoso a partir da observação de pequenas mudanças no comportamento dos animais e no ambiente. Esse conjunto de saberes foi repassado e aperfeiçoado ao longo das gerações pelos “profetas da chuva”, pessoas capazes de interpretar os sinais da natureza semiárida.

“As previsões dos profetas vêm da intimidade com uma natureza da qual retiram orientações sobre a chuva e a seca.”

Luiz Gonzaga compôs duas músicas que retratam a relação entre o comportamento da ave “asa branca” e a variação climática no semiárido. Quando ela vai embora do sertão, indica que a seca chegou. Quando ela retorna, ao contrário, espera-se por chuva.

(…) Por falta d’água/ Perdi meu gado
Morreu de sede/ Meu alazão
Inté mesmo a Asa Branca/ Bateu asas do sertão
Entonce eu disse/ Adeus Rosinha
Guarda contigo/ Meu coração (…)
(Luiz Gonzaga/ Humberto Teixeira, “Asa Branca”)

Já faz três noite/ que pro Norte relampeia
A Asa Branca/ ouvindo o ronco do trovão
Já bateu asas/ e vortou pro meu sertão
Ai, ai eu vou m’embora/ Vou cuidar da prantação (…)
(Luiz Gonzaga/ Zé Dantas, “A Volta da Asa Branca”

Outro elemento da nossa cultura que está intimamente relacionado à chuva/estiagem é o padroeiro do Ceará. Comemorado em 19 de março com um feriado estadual, o dia de São José possui grande significado na tradição popular. Se chover nesse dia, significa que o
“inverno” será bom, ou seja, haverá água suficiente para abastecer os açudes, lagoas e rios espalhados pelo Estado até que chegue a próxima quadra chuvosa.

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