Caixinhas de Memórias da Comunidade do Cumbe – Aracati

Muitas lembranças boas foram deixadas conosco através das Caixas de memórias de jovens moradores do Cumbe. O Projeto Patrimônio para Todos compartilha histórias pessoais que são narradas através de objetos íntimos e familiares, fotografias, cartas, elementos significativos da vida de cada aluno e da comunidade.

Aulas de Campo

A turma estava muito empolgada para iniciar as aulas de campo, depois de três dias de aulas teóricas, sobre patrimônio cultural e suas categorias.Através de fotografias, textos e filmagens começamos a fazer os registros do que os alunos consideraram como patrimônio cultural da comunidade do Cumbe.

Pilares da antiga Ponte

Nossa primeira parada foi a “Ponte da Canavieira”, construída, sobre o rio Jaguaribe, no ano de 1974, na administração do prefeito Abelardo Costa Lima, por Francisco Silvério de Oliveira (Seu Chiquinho da Mariquinha). Foi a maior ponte construída de carnaúba do Norte e Nordeste do Brasil. Hoje, como se observa na fotografia, só existe os pilares da “antiga  ponte”, pois ao lado dela há uma “nova ponte” feita de concreto armado. A “antiga ponte da Canavieira”, para os alunos e a comunidade é um lugar de memória.  Abaixo uma fotografia da “antiga Ponte” no início de sua inauguração.

Ponte da Canavieira

O rio Jaguaribe, maior rio do Ceará, nasce no município de Tauá e deságua entre os municípios de Fortim e Aracati. O Cumbe é a última comunidade na margem direita do rio Jaguaribe.

Rio Jaguaribe

Este é o Manguezal próximo à foz do rio Jaguaribe. No encontro da água doce com a salgada fica a quarta maior área de mangue do estado do Ceará, com 11,64 ha. É nesta área que está inserida a comunidade do Cumbe, que desenvolve várias atividades de pesca e mariscagem, garantindo assim sua segurança alimentar no mangue que a cerca.

Manguezal do Cumbe

No caminho de volta passamos pelo Centro Sócio Educacional Dário Valente, conhecido como Escola do Cajueiro e depois transformado em residência.

Centro Sócio Educacional Dário Valente

Esta escola era mantida por Dona Osvalda Valente, que era uma pessoa apaixonada pela educação e muitas vezes, já bastante idosa, saía de sua casa a pé e ia até o colégio para dar aulas, substituindo os professores que faltavam. Segundo os moradores, D. Osvalda era muito culta. O Centro Sócio Educacional Dário Valente é mais uma referência que se relaciona com a história dos nativos destes dois lugares circunvizinhos, Cumbe e Canavieira.

Artesanato Labirinto

Feito por mulheres labirinteiras (marisqueiras, agricultoras e donas de casa), que através dessa arte secular ajudam nas despesas de casa tecendo várias peças de labirinto como: toalha de mesa, colcha de cama, bandeja, guardanapo, vestido, calça, saia, shorte, blusa etc.

Edite Joventino do Nascimento tem 56 anos e desde os sete anos trabalha na arte do labirinto. Ela conta que para fazer uma peça vai depender da disponibilidade de tempo para trabalhar, por exemplo, um caminho de mesa para ficar pronto é de no máximo 2 meses. O ofício que é passado de geração em geração, hoje fica meio que de lado, por causa da rentabilidade. As peças são vendidas em Aracati e nas feiras. O material usado nesta arte é o saco, o bromante, o linho e a cambraia.

“Minhas filhas até sabem, mas pelas dificuldades não há muito entusiasmo.”

Marisqueira

Sonia Maria Rafael da Silva, tem 42 anos e desde os 10 anos é marisqueira. Os mariscos que tira do rio são o sururu, a ostra e o búzio. Segundo ela o sururu é o mais vendido. Para tirar o sururu ela usa o monobloco uma espécie de caixa de plástico, um Furquim de pau e balde com água. O Sururu custa R$ 3,00 o quilo. Ela conta que não existia associação mas que tem carteirinha de marisqueira.  “Minhas filhas também trabalham  na pesca de mariscos, onde tiram o sustento para toda a sua família”.

Dona Isabel – Lendas do Cumbe

Em relação às lendas, conversamos com Dona Isabel Gonzaga da Silva, que nasceu e se criou no Cumbe.  Ela trabalhava no “labirinto”, mas  hoje em dia não faz mais. Ela relata muitas lendas como a do Rei Sebastião, da Árvore da Ingazeira, de Gritos que se ouviam, da Galinha de Pedras, do Batatão, etc.

“Uma vez fui lavar roupa no morro e ouvi um toque dos tambores que eram das tropas do Rei Sebastião, rei de Portugal, que está encantado nas dunas do Cumbe”.

Senhor Wilton de Oliveira

Wilton de Oliveira tem 36 anos, nasceu e se criou no Cumbe e desde os 11 anos, por necessidade, pesca caranguejo, aprendendo o trabalho com o pai. Segundo ele, no início ajudava muito, porque com a boa venda dava pra sobreviver com uma renda razoável, mas com a redução da área de manguezal (desmatamento) e a pesca do caranguejo no período da reprodução houve diminuição da espécie nos manguezais “ por mim , meus filhos não vão pescar, pois não dá sustentabilidade”.

João Ribeiro da Costa

Conversamos também com João Ribeiro da Rocha, morador do Cumbe, que vive da agricultura. Sobre as manifestações culturais locais, ele nos relatou a Festa do Senhor do Bonfim. Contou que era festa muito bonita, tinha parque de diversão, carrossel e eram muitos dias de festa. Segundo ele quem ficava responsável pela organização da  festa era Tibá e Miguel Leite e atualmente, quem se encarrega da coordenação da igreja é  o João.

A contra dança era uma dança feita por homens em dois cordões, todos bem enfeitados, portando cacetes, ou seja, pedaços de pau, nas mãos. Cada dançarino desenvolve a dança, percutindo os cacetes uns nos outros.

Água das Levadas

Uma espécie de córrego que brota do pé do morro, que era límpida e corrente. Antigamente as pessoas usavam a Água das Levadas para quase tudo: lavar roupa, tomar banho e até mesmo para beber.

Igreja de Nosso Senhor do Bonfim do Cumbe

Nesta comunidade foram levantados três oratórios sucessivamente. O primeiro, em 1895, ao tempo do vicariato do padre João Francisco de Sá; o segundo, em 1917, no paroquiato do Monsenhor Bruno Rodrigues da Silva Figueiredo; e o terceiro, em 1942, no do padre Manuel Antônio Pacheco S.J. Em 1947, teve início a construção da atual capela, solenemente benzida em 1949, por Dom Aureliano Matos, bispo diocesano de Limoeiro do Norte, em visita pastoral, sendo vigário da paróquia o padre Abdon Valério S.J.

Casa de Luiz Barbosa Lima (Correia) e Osvalda Valente

São atualmente as casas mais antigas do Cumbe. Construção de taipa em estilo colonial.

Engenhos de cana de açucar

No Cumbe existiam nove engenhos trabalhando dia e noite na fabricação da cachaça e rapadura. A cachaça produzida no Cumbe era afamada no Ceará inteiro, dentre as marcas a mais conhecida era a “Gato Preto” ou “Água de vida do Cumbe”. Os principais produtores eram: Abel Lopes, Barbosa Lima, Luiz Correia, Marcelo, e Artur Clemente.

Dunas

O Cumbe possui um campo de dunas bastante significativo, responsável pela dinâmica da paisagem, característica da região. É nessas dunas que se encontram diversos sítios arqueológicos.

Sítios Arqueológicos

Amontoados de conchas que datam de 5.000/6.000 AP (Antes do Presente) e que eram ocupados por grupos ceramistas Tupi e Tapuias e, em momentos mais recentes, por instalações dos séculos XVIII e XIX. Nas dunas do Cumbe e região foram encontrados 71 ocorrências arqueológicas, entre 53 sítios arqueológicos e 19 áreas vestigiais, representadas por adornos, fusos, pesos utilizados na atividade de pesca, vasilhas cerâmicas, instrumentos lascados, cachimbos, lâminas de machado polido, estes últimos só encontrados em museus cearense.

Santa Cruz do Cumbe

Fincada no morro mais alto da região para comemorar a passagem do século XIX, por Abel Francisco Lopes proprietário de um sítio no Cumbe. Lugar de ex-voto e oração, onde se encontra o cemitério da comunidade.

Praia do Cumbe

Fincada no morro mais alto da região para comemorar a passagem do século XIX, por Abel Francisco Lopes proprietário de um sítio no Cumbe. Lugar de ex-voto e oração, onde se encontra o cemitério da comunidade.

Luiz Antônio

Luís Antônio Gonzaga da Silva, 48 anos de idade, artesão de 25 anos. Segundo ele, a idéia de fazer artesanato surgiu como uma brincadeira. “Eu fiz um pássaro, de côco e o coloquei na varanda da casa de José Correia, onde eu trabalhava. Quando José Correia viu o pássaro, achou interessante e o levou para uma exposição no Museu Jaguaribano. Após algum tempo ele veio me entregar o dinheiro dizendo que o pássaro já havia sido vendido. A partir daí eu comecei a acreditar no meu trabalho. Continuei fazendo e criando novas peça. Já ganhei o prêmio de escultura, obra: Pássaros, da XXXVIII Salão de Abril de 1988.   Hoje eu tenho uma variedade de mais de 50 tipos de peças diferentes, e sempre que me vem uma nova idéia a cabeça eu crio outra peça.”

Patrimônio e a Comunidade

As Riquezas do Cumbe

No Cumbe entrevistamos moradores da comunidade, com o objetivo de percebermos as mudanças da localidade no decorrer dos anos. Eles nos relataram que existiam vários sítios que cultivavam coco, feijão, cana-de-açúcar, manga, banana, jerimum, batata, macaxeira, etc. Lembraram-se dos seguintes sítios: Noé Lopes, Luiz Correia, Marcelo, Dário Valente, Mariquinha Pinheiro, Artur Clemente e o Sítio Glória que era o mais imponente de toda a região. Hoje, boa parte das terras foram soterradas pelas dunas. E as que não foram, sofreram erosão com os desmatamentos atribuídos pelos moradores às construções dos viveiros de camarões, ou seja, da carcinicultura.

Leitura entre alunos

Leitura da apostila módulos III e IV – “A cidade e suas histórias” e “ Meu bairro tem história”.

Riquezas do Cumbe

Vídeo sobre “Técnicas de captura do caranguejo”, uma das atividades econômicas da comunidade do Cumbe.